quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Little bee

Chris Cleave não é apenas um brilhante psicólogo. E sim, um mestre na arte de utilizar metáforas para explicar os piores sentimentos da humanidade. Seu livro, Pequena Abelha, ilustra o poder do homem de destruição quando se trata de garantir, a si mesmo, a sobrevivência.  Em uma explosão de acontecimentos, talvez não tão reais como pareçam, Cleave desenrola uma trama de decisões e indecisões envolvente.

O livro é leve, as páginas correm soltas. É impossível ler aos poucos. Mas seu conteúdo é cáustico. Quem conhece ou se informa sobre as inúmeras realidades da África fica com um nó no estômago após devorar as palavras do psicólogo inglês. Não é a toa que a obra está entre as mais vendidas há alguns meses.

Segue abaixo o meu trecho favorito do livro:

“Eu dizia a eles que perto da minha aldeia existia um rio largo e profundo com cavernas escuras sob as margens, onde os peixes eram descorados e cegos. Não havia luz nas cavernas deles, de modo que depois de milhares de gerações a espécie deles desaprendeu o truque de enxergar. Entendeu o que quero dizer?, eu perguntava aos funcionários do centro de detenção. Sem luz, como se pode manter a visão? Sem um futuro, como conservar a visão do governo? Poderíamos tentar quanto quiséssemos em nosso mundo. Poderíamos ter um Ministro da Hora do Almoço muito diligente. Poderíamos ter um excelente Primeiro-misnistro da Parte Mais Calma do Final da Tarde. Mas quando chega o crepúsculo – está vendo? – nosso mundo desaparece. Não se pode enxergar além do dia porque vocês levaram o amanhã. E porque vocês têm o amanhã diante de seus olhos, não enxergam o que está sendo feito hoje.” (páginas 187-188)

Entrevista com o autor (em inglês):

sábado, 15 de janeiro de 2011

À procura da felicidade alheia

Matéria produzida para o impresso experimental da Famecos, Jornal da Manhã (edição número 11 -  dezembro de 2010)

Casada, com três filhas, 55 anos e 32 de carreira, a dentista Susana Maria Rossi de Carvalho e Silva cultiva tempo para fazer o bem. Pequena, ela já se designava a ajudar o próximo. Hoje, dedica-se às crianças e adolescentes com necessidades especiais através da ONG Parceiros Voluntários.
Recentemente, ela recebeu o diploma de honra ao mérito da Câmara de Porto Alegre por seu esforço para ajudar os lares: Menino Jesus de Praga, Educandário São João Batista e Lar Santa Rita dos Excepcionais. Desde que voltou de um curso sobre voluntariado nos Estados Unidos (EUA), ela está envolvida na construção de um espaço para a Associação de Mães Rita Yasmin, que tem como objetivo amparar os pais das crianças com lesão cerebral.

O que você aprendeu com essa viagem?
Voltei dos EUA um pouco frustrada, porque não pude trazer novidades. Estamos muito bem em termos de odontologia. Eles ainda usam muito o óxido nitroso e a anestesia geral para tratar pacientes especiais e crianças. Este tipo de atendimento não é de todo ruim, mas é extremamente caro e o Sistema Único de Saúde (SUS) não tem condições de sustentar. Nós aprendemos, nesse curso, uma disciplina que se chama manejo com o paciente, isto é, mesmo que a criança não queira ser atendida, temos que tentar convencê-la. Lá, eles medicam o paciente, se não conseguem o consentimento. Nos EUA, a prevenção é escassa, as crianças têm muitas cáries. Mesmo que seja falha, de alguma forma, no Brasil, já temos prevenção.

O que mais te chamou a atenção nos EUA?
Na Califórnia, conheci um lugar chamado Rancho Los Amigos. Onde só pacientes portadores de necessidades especiais têm direito a acompanhamento médico. Lá tem médicos, dentistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, neurologistas, psicólogos etc. Também fazem cirurgias com data marcada, só não recebem emergências. É um lugar muito grande, arborizado e com vários prédios térreos.

Quando vocês voltaram para o Brasil, vocês tiveram que apresentar um seminário para convidados do governo. Como foi isso?
Eu comentei que não tinha trazido novidades em relação à odontologia, mas que tinha conhecido o Rancho Los Amigos e tinha adorado. Então, sugeri que fizéssemos o "nosso rancho" aqui em Porto Alegre, começando com um galpão. Até porque, lá no bairro Restinga, tem uma avó de uma criança especial que já tem um terreno e uma associação organizada. Seria um grande sonho para mim. No intervalo deste seminário, um senhor chamado Marco Aurélio Caloy veio falar comigo e disse que tinha condições de me ajudar. Ele faz parte do Funcriança. Estou confiante que conseguiremos fazer o nosso "Rancho".

Mundo teme novos surtos de doenças

Matéria produzida para o impresso experimental da Famecos, Jornal da Manhã (edição número 11 -  dezembro de 2010)


Gabriel Garcia Marquez se deixou impressionar pelos efeitos agudos das enfermidades do século XIX e, em 1985, lançou o romance Amor nos tempos do cólera. O escritor português José Saramago, combalido por uma perda inexorável e progressiva da visão, igualmente não poupou palavras para descrever a devastação que uma peste pode causar em seu livro Ensaio sobre a cegueira, publicado em 1995. O que essas obras tem em comum é a palavra epidemia que, originária do grego, significa: “sobre todos”.
Não é de hoje que o vocábulo assusta ao ser pronunciado. Durante o caminho da humanidade, um inúmero contingente de doenças contagiosas causou tamanho horror que criou divisões em períodos da história. A peste negra dizimou um terço da Europa durante a Idade Média e é conhecida até os dias de hoje como um dos piores surtos bacterianos.
Nessa época, era comum o uso da religião e de rituais caseiros como tratamento. A historiadora e diretora do Museu de História da Medicina (Muhm), Juliane Primon Serres, esclarece: “Como a medicina não conseguia desvendar mistérios envoltos em epidemias, a Igreja se aproveitou disso para conseguir mais fieis. A doença passou a ser uma punição divina, uma resposta para o pecado.”
Em 1918, enquanto todos presenciavam o fim da Primeira Guerra, a gripe espanhola matou 40% da população mundial, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Conforme Paulo Michel Roehe, virologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a rápida disseminação se deu por causa do transporte e deslocamento das tropas. “Desde essa época, as amostras que circulam em humanos são H1N1, H2N2 ou H3N2. Os vírus de gripe possuem duas proteínas importantes em seus exteriores: a hemaglutinina, que dá origem ao H; e a neuraminidase, que representa o N”, clarifica o professor.
A partir da industrialização e do fim da sacralização do corpo para estudos científicos, houve um grande avanço da medicina. “Com o surgimento das sociedades, do progresso, aumentou o contato físico. Isso é um pouco paradoxal, porque, ao mesmo tempo em que nasce o individualismo, o indivíduo não está mais só”, afirma a historiadora.
O acúmulo de pessoas em locais fechados fez com que o homem trabalhasse o controle sanitário. Juliane explica que a ideia de salubridade, de cidade limpa, emerge no século XVIII para ponderar a aglomeração resultante do crescimento urbano. A domesticação de animais foi outro fator que colaborou com a disseminação de moléstias. O contato diário permitiu adaptação dos vírus em hospedeiros humanos.
“A importância do estudo das epidemias para a história é exatamente essa: a organização e a desorganização social. Essas questões modelam o nosso comportamento, até a linguagem médica passa a fazer parte do cotidiano, a sua dialética provém do vocabulário militar”, comenta Juliane. A abundância de ocorrências causava a desestruturação de grupos sociais. Enquanto as metrópoles cresciam, uma parcela da população se refugiava no campo com medo de contágio.
A descoberta da imunização mudou novamente o rumo da medicina. “Estudando as mulheres responsáveis pela ordenha das vacas, Edward Jenner descobriu que a amostra presente nos bovinos tornava os humanos imunes à varíola”, conta Roehe. O professor descreve que as primeiras noções de vacinação se baseavam em transmissão em série, através de amostras sanguíneas, de uma pessoa curada para todos que ainda não contraíram determinada doença.
Vacina deriva de Vaccinia, o agente infeccioso da varíola. “A vacina tem efeito homeopático, pois ela é a inoculação do vírus. É uma dose reduzida do que seria o veneno para o combate da doença. Não é batalhar com algo contrário a doença, mas tentar lidar com o próprio vírus”, acredita Juliane. Porém, apesar de seus benefícios, as vacinas nem sempre foram bem vistas. No Rio de Janeiro, em 1904, a Revolta da Vacina deixou sequelas na contemporaneidade. A própria campanha contra a gripe A, em 2009, mostrou que o pânico fez com que muitos resistissem à imunização.
O alarme em torno da gripe A, nos últimos três anos, se deu por se tratar do mesmo vírus da gripe espanhola. Em aves existem em torno de 16 hemaglutininas e 9 neuraminidases. “Por isso, eventualmente surgem problemas como a gripe aviária, o H5N1. Não é uma amostra que normalmente circule em humanos, contudo num certo momento ela conseguiu pular essa barreira de espécie”, exemplifica Roehe.
Toda epidemia possui uma curva de andamento, elas não duram para sempre e raramente acabam com uma espécie. “Quando se tem uma ampla população não resistente, ocorre um grande pico de casos. Uma parcela, maior ou menor, vai morrer. Outra vai ter a infecção e sobreviverá. Alguns tem a doença, mas subclínica, sem sinais. Até que surja uma população resistente”, declara o especialista.
Um exemplo recente desse ciclo foi a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). Nascida na China, em 2002, a enfermidade contaminou boa parte da Ásia. “Não chegou a ser uma pandemia e ficou restrita a um continente, porque essa amostra não estava tão adaptada a humanos que permitisse a difusão de uma pessoa para outra”, crê Roehe.
Os vírus, as bactérias e vários outros microorganismos possuem uma função e fazem parte da teia alimentar que inclui todos os seres vivos. O professor de virologia ressalta: “Pandemias sempre vão ocorrer, de tempos em tempos. A chance sempre existe, mas hoje em dia todos estão muito mais alerta. A vigilância sanitária e a agilidade são maiores e melhores.”


Número de pessoas com AIDS preocupa
A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) é considerada uma pandemia global. A Joint United Nations Program on HIV/AIDS (Unaids), órgão criado pela OMS em 1996 para combater o vírus, estima que 15 mil pessoas sejam contaminadas por dia no mundo.
A África é o continente mais afetado, 20% da população da África do Sul possui HIV. No Brasil, mais de 730 mil pessoas enfrentam a doença. “A falta de prevenção no início da propagação permitiu um intercâmbio de amostras”, aponta Paulo Michel Roehe.
Os primeiros registros de mortalidade pela doença datam de 1969, porém sua origem ainda é motivo de debate para a ciência. Outro mistério é a cura, impossibilitada pela mutação contínua do vírus e sua capacidade de inserção em células humanas. “No caso da AIDS tem o problema de que a variabilidade antigênica é muito grande, o vírus varia muito mesmo. É praticamente impossível o desenvolvimento de uma vacina que defenda alguém de todas as amostras”, informa o virologista. Ele ilustra que o vírus não coevolui com o homem, dificultando as pesquisas focadas na sua erradicação.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O MENINO, O AMIGO, O HOMEM...

TRABALHO PARA A DISCIPLINA DE REAÇÃO EM JORNAL - PERFIL DO PERSONAGEM NICK CARRAWAY DO LIVRO "O GRANDE GATSBY"

Era verão e fazia muito calor em Minnesota, Estado Unidos. A tarde quente derretia a tinta das pequenas cercas de madeira. Os animais se refugiavam em qualquer nesga de sombra. Rompendo o silêncio do faroeste americano, nascia Nicholas Carraway, no primeiro dia de julho de 1892. Um bebê normal, olhos escuros, pouco cabelo. Logo aquietou-se e dormiu um longo sono.

Durante a infância, Nick – como era carinhosamente chamado por sua família – foi o tipo de criança que não costuma cultivar amigos. Preferia ficar entre os mais velhos, ouvindo anedotas e histórias antigas. Sempre foi observador, gostava de analisar o comportamento dos adultos, reservadamente. Segundo ele, é por isso que se tornou um homem honesto.

– Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: “sempre que tiver vontade de criticar alguém, lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou”. – suspirou o velho com o peso dos seus 118 anos.

Depois de se graduar em New Heaven, Nick foi mandado para a França, lutar na Primeira Guerra Mundial, em 1917. Não foi um soldado exemplar. É um homem de poucas palavras, mas um conciliador. Não admira a violência como os rapazes de seu tempo.


– Participei daquela retardada migração teutônica conhecida como a Grande Guerra. – ele fala com certa ironia, coçando o queixo – Apreciei tão vivamente aquela contra-incursão, que voltei para casa irrequieto.

No entanto, foi esse retorno que mudou sua vida. Ao chegar, decidiu ir a New York, para aprender sobre o mercado de títulos. Na época, o assunto era a última moda, e um dos melhores jeitos de se ganhar dinheiro sem burlar as leis. Nick admite, relutantemente, ter essa mania de querer fazer o que os outros estão fazendo.

Quando o calor do verão se aproximava, ele já estava cansado da cidade grande e resolveu alugar uma casa simples no leste de Long Island. O sol brilhava alto naqueles dias de 1922. O extenso tapete de grama verde e fresca se estendia ao longo da praia. Ao lado da casa de Nick, morava Jay Gatsby, um alemão misterioso e anfitrião de muitas festas absurdas. Os boatos a respeito do sujeito envolviam desde roubo e desvio de dinheiro até assassinato.

As noites eram regadas a bebidas caras e muito jazz. Os convidados iam e viam com suas roupas que mais pareciam fantasias de carnaval. Sozinho em sua varanda, Nick acompanhava o movimento na casa vizinha de soslaio, fumando seu último cigarro do dia. Repudiava tamanhas futilidades pertencentes à high society. Perguntado sobre Gatsby, ele brada com certo rancor e até um leve tom de inveja:


– Se a personalidade consiste numa série ininterrupta de gestos bem sucedidos, então é certo que havia nele algo magnífico, uma apurada sensibilidade para as promessas da vida, como se ele tivesse alguma relação com esses intricados maquinismos que registram terremotos ocorridos a dez mil milhas de distância.

Entretanto, Nick e Gatsby desfrutaram de uma amizade permeada de segundas intenções. Enquanto Nick se esbaldava com as orgias produzidas pelo nouveau riche, Gatsby usou-o para reencontrar o amor de sua vida: Daisy. Ela não era uma jovem americana qualquer, era prima de Nick e esposa de Tom Buchanan, um primata cheio de dinheiro com o caráter de um garotinho mimado de 10 anos de idade.

Cerca de uma década antes daquele mormaço intenso de Est Egg, Gatsby e Daisy tinham se apaixonado loucamente. Todavia, ele teve de ir para a Europa. Ela prometera esperar, mesmo sendo o amor um caso mal visto pela família. O tempo passou e eles perderam contato. Quando Gatsby retornou, quis reaver sua amada com a ajuda de Nick.

Naquela época, a melhor amiga de Daisy, Jordan andava atrás de Nick como uma mosca as voltas de um doce. Apesar de sua falta de maturidade e comportamento rebelde, ele apreciava as tardes ao lado da moça, que era golfista profissional.


– De repente, já não estava mais pensando em Daisy nem em Gatsby, mas naquela cara, sólida, limitada criatura, que se entregava a um ceticismo universal, e que se acomodara agilmente bem dentro do círculo do meu braço. – Nick ergueu os braços rugosos e formou uma roda com eles na frente de sua barriga. – Uma frase começou a martelar-me os ouvidos, como uma espécie de persistente excitação: “existem apenas os perseguidos, os que perseguem, os ativos e os fatigados”.

Não muito tarde naquele ano, Nick voltaria a pensar em Gatsby. A tarde insossa em que Jordan, Tom, Daisy, Gatsby e ele resolveram ir a New York para aliviar o desânimo, lhe nubla a memória até hoje. O capricho de Daisy em voltar dirigindo o carro do milionário tirou a vida da senhora Wilson, amante de Tom. Ávido, limpando a testa com um lenço, Nick confessa:


– Ocorreu-me, então, algo. Suponhamos que Tom descobrisse que era Daisy quem estava guiando... Ele poderia supor que houvesse uma ligação em tudo aquilo... Poderia supor tudo.

Entretanto, Tom lavou suas mãos ao conectar os fatos: em vez de vingar a morte da amante, contou ao marido dela que Gatsby a havia matado. Wilson, em estado de choque, não pensou duas vezes antes de atirar no alemão.

Depois daquele ano, Nick não foi mais o mesmo. Voltou para West Egg e ignorou o assunto por muito tempo. Ele pensa que poderia ter evitado a série de incidentes daquele verão. A culpa vem matando Nick aos poucos. Agora lhe restam apenas o silêncio dos campos cobertos de folhas secas do outono e as memórias de sua juventude agitada.