sexta-feira, 20 de março de 2015

HAHAHA só que não!

Passei rindo, nos últimos dias, da ignorância que marchou às ruas do Brasil. Mas hoje, parando para pensar com mais clareza, eu percebi que a gente não deveria mesmo rir e desmoralizar quem protesta sem saber o motivo, o tom e a que lado pertence. Por pior que sejam as pérolas, esse desconhecimento generalizado, tanto da história brasileira, como da constituição, não deveria ser motivo de riso e essas pessoas não deveriam ser ridicularizadas. 

Ao rir desses indivíduos, nos tornamos tão ignorantes quanto, pois nos rebaixamos a um nível em que não somos mais capazes de entregar conhecimento e, na nossa, arrogância, nos convencemos que somente nós podemos governar a todos. Grande mentira, não só porque não está ao nosso alcance, como também não é e nunca será nosso direito. Vindo de um sistema democrático, devemos sempre, em qualquer ocasião, respeitar a opinião alheia, mesmo que ela choque, mesmo que ela coloque o dedo na ferida, isso é liberdade de expressão. Sim, existe uma linha tênue entre ela e o preconceito, entre ela e a calúnia. Mas dissecando as manifestações, ao rirmos dos ignorantes de classe média alta que, com seu conhecimento de escola particular, não conseguiram demonstrar um mínimo discernimento dos fatos, nós endorsamos um péssimo discurso e aumentos o conflito entre "direita" e "esquerda", "norte" e "sul", 99% e 1%. 

Esse gap já é gigante e debochar dos outros só faz aumentar. Por que não tomar uma posição de, ao invés de ridicularizar, educar, explicar, mostrar, sem deboche, que existe uma história, uma série de leis, um sistema a ser seguido? Por que não utilizar isso para repensar a educação brasileira? O que mais me deixou pasma nesses protestos foi exatamente isso, o nível do nosso ensino escolar. Gente, até a Globo, que manipula em favor da direita há anos, já fez uma série de filmes detonando a ditadura militar (entre eles cito Batismo de Sangue e O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, que são bem fortes). A internet está aí também, com uma série de materiais sobre o quão duro foi aquele período. E não é só isso, fico perplexa com a falta de conhecimento sobre a economia mundial. As pessoas pedindo irracionalmente para a Dilma baixar o preço do dólar. 

Precisamos voltar àquele tempo em que se ensinava na segunda série a preencher cheques, porque educação monetária e econômica era importante. Hoje as crianças saem do ensino fundamental sem nem saber ler, pois nessa adoção do 9º ano permitimos que o ensino decaísse, valorizamos demais a meritocracia e a decoreba pra passar no vestibular. É isso que dá, formamos indivíduos que conseguem fazer uma prova com 90 questões interpretativas em 5h, mas que não conseguem processar as informações, discuti-las e formar opinião própria embasada sobre qualquer assunto. Parem e pensem, não é questão de ensinar a constituição nas escolas, como quer o Romário, mas de mostrar que ela existe, que ela contém nossos direitos e DEVERES como cidadãos e que elas está disponível para nós em múltiplas plataformas. 

Não é exigir que uma criança saia da primeira série lendo e fazendo cálculos, é mostrar pra essa criança, desde cedo, a vantagem de saber ler, de saber interpretar e opinar criticamente. É incentivar as pessoas a irem além das suas capacidades e, não, aceitar simplesmente que se passem todos de ano sem saber os conteúdos básicos para sobreviver, por simples pena da autoestima da criança. Não é rodar também, é ensinar de verdade, ao ponto que não se precise rodar, que não se precise decorar pra passar no vestibular, e, mais ainda, que não se precise ouvir tanta asneira nas ruas em tempos atuais.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Geração mind the gap

Smile Back At You by Mind the Gap on Grooveshark
Nasci em 1989, um pouco antes da queda do muro de Berlim. No Brasil, primeiras eleições diretas desde os anos 60. Minha geração é a geração do gap, ou seja, a que mais sofreu mudanças de contexto ao longo do tempo, na minha opinião. Crescemos a última infância na rua, dentro das cidades. Assistimos praias quase desertas serem transformadas em centros urbanos de costas para o mar. Somos filhos da democracia, vivemos mais tempo em sistemas políticos de esquerda do que os nossos pais, no entanto, a maioria de nós é de direita.

Nós encerramos a era dos analógicos. Fomos os últimos a usar celular sem internet, a ter fotos impressas e conhecer o processo de impressão proveniente do filme. Quem nasceu em 1989, tem um gap nos álbuns de fotos, aliás. Provavelmente os seus vão até 2002, depois tudo se tornou digital. Muitos de nós não têm registros da transição, afinal o filme acabou antes que se tivesse dinheiro para comprar máquinas tecnológicas, ou ter computador.

Fomos nós que tivemos que aprender como se vive fora de regimes e ensinamos nossos pais a votar, a agir politicamente. Nós, intermediários de um mundo de papel e algoritmos, que demos início a revolução digital. Nós mudamos o ensino, agora é proibido bater e apanhar. Tudo é no diálogo, mesmo que seja on-line.

Nossa geração é a primeira a debater abertamente o aborto, a legalização das drogas, a pena de morte. Nossa geração não tem medo da fome, nem de bala perdida, convive demais com a violência. Queremos todos mudar o mundo, mas não sabemos nem mudar nós mesmos. Somos pouco gananciosos, queremos que o mundo nos tome e não que nós tenhamos de tomá-lo.

Somos filhos de pais separados. Reinstauramos o amor livre, não queremos compromisso, mas amamos tudo e todos. Somos todos indignados, mas não aguentamos um debate com mais de 30 minutos.

Tivemos de aprender a ler de novo na fase adulta. A ler fragmentado, a escrever com apenas 140 caracteres. Mudamos a forma de se comunicar e perdemos o controle disso para as gerações milenares.

Somos frustrados porque nascemos na época errada. Invejamos os anos 80. Somos nostálgicos do que nem se quer vivemos.

Esquecemos como era legal escrever uma carta em um papel colorido, como jogar cartas fazia o tempo passar mais rápido que o Facebook e que, quando faltava luz, a gente se divertia e não se entediava. Viemos do tempo em que o tédio não era uma preocupação real.

Os nossos problemas não foram curados com remédios, mas com educação, em uma época em que pais e escolas se uniam em prol dos nossos futuros. O nosso mundo foi menos competitivo, os que vem atrás precisam se esforçar cada vez mais para tudo. Nós ainda somos perdoados, afinal estamos no gap.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Identidade de viagem - PARTE 2

30 dias. Era cilada gente. Ao desembarcar aqui conheci o amor da minha vida. A convivência e a intolerância destruíram qualquer possibilidade de florescer esta paixão. Cometi uma série de erros comuns também, como acreditar e confiar numa pessoa que conheci ontem e não sei de onde vem, para onde vai. Normal, quando viajamos, os conceitos de tempo e laços são totalmente diferentes. Viver um dia pode ser muito mais intenso que viver um ano. Mas errar é humano, pena que não é muito perdoável. Também eu não soube perdoar, ainda. É incrível como nos magoamos e decepcionamos fácil e rapidamente com as pessoas. O bom disso tudo é que eu vejo que estou amadurecendo emocionalmente, finalmente, pois percebi que minha situação era absurda e soube sair no momento certo. Perdi um amor, uma amizade e alguns euros, mas saí com dignidade e não deixei de viver a minha vida por ninguém.

25 anos, não é idade pra ser mãe. Não foi isso que eu vim fazer na Europa. Uma coisa que nos escapa ao fazer intercâmbio é o que estamos de fato fazendo. Em parte pelo deslumbre da novidade, em parte porque simplesmente estamos ocupados aprendendo tudo, fazendo tudo e conhecendo tudo. No entanto, é importante sentar e refletir, de tempos em tempos (pode ser um exercício diário), quais os nossos reais objetivos, não só do intercâmbio, mas da vida daqui pra frente, já que este momento incerto pode mudá-la pra sempre. Quando me perguntam quanto tempo vou ficar em Lisboa, dou de ombros, não sei, a vida toda e eu pensava isso de Porto Alegre também.


Aí vem outra tarefa, desgarrar-se e aceitar que agora somos apenas nós duas, eu e minha consciência. Não é que não se possa ter alguém, claro que se pode e deve, mas este alguém (ou estes) vai surgir com o tempo, aos poucos, com as pequenas coisas, com conhecimento. Confiança é algo que só se dá assim, on daily basis, com provas cotidianas de que é possível entregar sua vida a alguém e vice-versa. E não estou falando de romance, não, minha gente. Isto vale para amizades também, vale para tudo. Até porque, e repito isso para mim mesma em alto e bom som todos os dias, não somos obrigados, NUNCA, a lidar com os problemas alheios. Não precisamos pagar pelos erros dos outros cometidos no passado. Por isso eu sei que ainda não estou pronta para encarar uma vida em família da noite para o dia, porque eu ainda não desejei isto e não me aconteceu por acidente. Eu soube me cuidar para chegar nos meus 25 anos e poder ser livre para viajar, tomar um porre, sair num dia de semana e ter um certo limite de irresponsabilidade que eu ainda considero natural ao meu ser.

Cada um com o seu dilema. Está aí um bom mantra. Não lidar com a merda alheia não quer dizer ser irracional ao ponto de desrespeitar os outros. Isso é outra coisa que estou aprendendo nesta viagem: respeito é mútuo e essencial entre culturas. Desde que cheguei já fui considerada muitas coisas ridículas porque sou diferente e venho de uma cultura way mais liberal. No início fui muito tolerante e compreensiva, afinal sou eu que estou invadindo estas terras. Mas aí me lembrei que respeito nem sempre quer dizer submissão. Não importa onde eu estiver, tem certas coisas que eu não vou e não quero nunca me calar diante, entre elas estão desrespeito com o corpo da mulher e violência contra crianças. Aliás, violência de uma maneira geral. Quando não existe respeito pela condição alheia, não existe relação bem-sucedida.

E o mais importante de tudo é viver as experiências, absorver o que houve de bom e exorcizar o mal porta a fora. Não existe depois pior que o antes, isto tem que ser inaceitável a toda a gente. Como dizia mamãe: "depois de cair, levanta, sacode a poeira e vamos embora!". E é bem isso, porque a vida não é o que nos resta, pelo contrário, a vida é uma excelente oportunidade de começar de novo a cada nascer e pôr do sol.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Paranauês

Quando você pousa em terras lusitanas, sua vida corre o risco de se tornar um inferno da burocracia. Eu aprendi isso a duras penas, vivendo todas as experiências e fazendo para desfazer. Como sou uma pessoa legal, vou dividir com você algumas dicas importantes!

A primeira coisa que você tem que fazer ao chegar é o NIF, uma espécia de CPF. Como fazer? Muito simples, você pega seu passaporte/visto e convoca um português que more com você ou no mesmo bairro (isto é muito importante) e vai até uma Financeira. Fica pronto na hora, custa em torno de 10 euros. Vão dizer que você precisa de contrato de trabalho e mil documentos, mentira. Com o seu passaporte, e os documentos do português que resida com você (BI), fica pronto na hora. É apenas um papel com um número, mas o valor é inestimável, vão te pedir NIF para tudo.

Segundo passo é embarcar no metro (aqui eles pronunciam métro) e ir até a estação Marquês do Pombal (linhas azul e amarela) para fazer o cartão Viva. Com este cartão, você anda livremente no transporte público com uma carga de 35 euros/mês. Se você não fizer o cartão, vai pagar por trecho e gastará fácil 20 euros em 5 dias. Para o cartão, você precisa do papel que te dão na estação mesmo, duas fotos 3x4 e seu passaporte. Se tiveres o NIF, melhor, mas senão, não tem problema.

Depois disso, você precisa colocar seu PB4 em prática. Lembra dele? O seguro saúde que você tirou no Brasil para fazer o visto. Exatamente, ele não funciona aqui sem o Cartão Utente. Como fazer? Parte chata, o NIF tem que estar no seu endereço de residência, aí você junta todos os documentos que tem, todos mesmo, e vai no Centro de Saúde da sua freguesia. Eu moro na Ameixoeira, minha freguesia é a Santa Clara, mas meu Centro de Saúde é o Lumiar. Sim! Complicado, mas aqui vai um link que ajuda.

Feitos estes paranauês, hora de sair e tomar uma cerveja. Mas, e sempre tem um mas, cuidado com o que você fala, não esqueça que o português daqui é outra língua, então aqui vai uma lista de coisas que são importantes ter conhecimento:

1) NUNCA, em hipótese alguma diga "fazer um bico", bico = sexo oral.
2) Malhar quer dizer transar, aqui academia se chama ginásio e se treina. Em vez de musculação, eles "usam as máquinas".
3) Percebe quer dizer entende. Sempre vão te perguntar "percebes?"
4) Pica aqui não é pênis não! Pica é gíria para vontade, por exemplo, "que pica de ir ao shopping", sim, bizarríssimo.
5) Pila, a moeda gaúcha, aqui é pênis.
6) Sandes = sanduíche
7) Tudo em Portugal vem com café ou com sopa, sempre que perguntarem, diga sim, mas lembre-se de perguntar se está incluso no menu, ou vai tomar um susto com a conta
8) Eles usam mais "adoro-te" que "eu te amo"
9) Os nomes dos filmes são ditos em inglês
10) Puto é menino, ok, essa todo mundo sabe. Gajo(a) é gíria para guri(a). E, miúdo(a) é criança
11) O 6 eles dizem 6, não "meia". E as horas é em quartos, por exemplo, 19h45 é "um quarto para as 20h"
12) "Deitar fora" quer dizer jogar coisas no lixo
13) Prepare bem a mala de remédios, aqui corticoide e antibiótico só com receita médica LOCAL e a dipirona é proibida em território português, sim, chateadíssima
14) Sumo = suco ou refrigerante
15) Qualquer biboca aqui tem guaraná
16) O VTM (Visa Travel Money) não é aceito em qualquer lugar, aliás, é pouco aceito
17) Não existe telentrega de farmácia por aqui D:
18) Piada = graça, por exemplo, fazer algo engraçado tem piada, ou seja, tem graça... Sim, vá entender?
19) Para os alérgicos de plantão: gamba aqui é camarão!!!
20) No futebol, eles dizem penalt (pronuncia penááált) em vez de pênalti e dizem "fora da linha de jogo" para impedimento (não conhecem essa expressão)
21) Por mais gratuito que tenha sido seu PB4, qualquer coisa que acontecer com você, se você for parar no hospital, já marchará em 20 euros de consulta médica e todos os exames/medicamentos serão cobrados também. O interessante é que você não é obrigado a pagar na hora, pode escolher pagar numa data futura :)
22) Malta é a gíria para "gurizada" e eles têm até um drinking game com isso
23) Várias palavras aqui são femininas, ao contrário do Brasil, como a carne vazia (que equivale mais ao nosso patinho, mas é uma tentativa de vazio)
24) Eles dizem registar, em vez de registrar e eu sempre, SEMPRE rio incontrolavelmente :/
25) E, na minha opinião, a pior de todas, eles pensam MESMO que no Brasil a selva amazônica está por tudo, que é sempre quente e que há um risco iminente de ser metralhado por um motoqueiro ao andar na rua (?)